Antigo Egipto
Antigo Egipto ( português europeu ) ou Antigo Egito ( português brasileiro ) ( AO 1990 : Antigo Egito ) é a expressão que define a civilização da Antiguidade que se desenvolveu no canto nordeste do continente africano , tendo como fronteira a norte o Mar Mediterrâneo , a oeste o deserto da Líbia , a leste o deserto da Arábia e a sul a primeira catarata do rio Nilo . [1]Pirâmides de Guiza (ou Gizé) [2]
A história do Antigo Egipto inicia-se em cerca de 3150 a.C. , altura em que se verificou a unificação dos reinos do Alto e do Baixo Egipto , e termina em 30 a.C. quando o Egipto, já então sob dominação estrangeira, se transformou numa província do Império Romano , após a derrota da rainha Cleópatra VII na Batalha de Ácio .
Durante a sua longa história o Egipto conheceria três grandes períodos
marcados pela estabilidade política, prosperidade económica e
florescimento artístico, intercalados por três períodos de decadência.
Um desses períodos de prosperidade, designado como Império Novo , correspondeu a uma era cosmopolita durante a qual o Egipto dominou, graças às campanhas militares do faraó Tutmés III , uma área que se estendia desde Curgos (na Núbia , entre a quarta e quinta cataratas do rio Nilo) até ao rio Eufrates . [3]
A civilização egípcia foi umas das primeiras grandes civilizações da Humanidade e manteve durante a sua existência uma continuidade nas suas formas políticas, artísticas, literárias e religiosas ,
explicável em parte devido aos condicionalismos geográficos, embora as
influências culturais e contactos com o estrangeiro tenha sido também
uma realidade.
Geografia
Mapa do Antigo Egipto
O território
no qual se desenvolveu a civilização do Antigo Egipto corresponde, em
termos tradicionais, à região situada entre a primeira catarata do rio
Nilo, em Assuão ,
e o Delta do Nilo. O Sinai, situado a leste do Delta do Nilo, funcionou
como via de acesso ao corredor sírio-palestiniano, designação atribuída
à faixa de terra que ligava o Egipto à Mesopotâmia . A oeste do Delta, surge o deserto da Líbia (ou deserto ocidental), onde se encontram vários oásis dos quais se destacam o de Siuá , Kharga , Farafra , Dakhla e Bahareia . O deserto da Árabia (ou deserto oriental), estende-se até ao Mar Vermelho . A sul da primeira catarata situava-se a Núbia ,
cuja cultura e habitantes já eram vistos como estrangeiros. Em diversos
momentos, o Egipto ultrapassou a primeira catarata e tomou posse de
territórios Núbios, onde obtinha diversas matérias-primas.
O território do Antigo Egipto não deve ser por isso confundido com o território da moderna República Árabe do Egipto ,
dado que esta se estende para sul da primeira catarata do Nilo até ao
paralelo 22ºN e inclui partes dos deserto da Líbia e do deserto da
Arábia, bem como a península do Sinai [4] .
Esta civilização desenvolveu-se graças à existência do rio Nilo , sem o qual o Egipto não seria diferente dos desertos que o cercam. Neste sentido, é bem conhecida a frase do historiador grego Heródoto (que visitou o Egipto em meados do século V a.C. ), segundo a qual o Egipto era uma dádiva do Nilo, retomando o historiador uma afirmação anterior de Hecateu de Mileto .
Os dois afluentes principais do rio Nilo são o Nilo Branco (que nasce no Lago Vitória ) e o Nilo Azul (oriundo dos planaltos da Etiópia ). O Nilo corre de sul para norte, desaguando no Mar Mediterrâneo , com uma extensão aproximada de 6695 quilómetros. Todos os anos as inundações do rio, que se iniciavam no Egipto na segunda metade de Julho e terminavam em meados de Outubro , depositavam nas margens uma terra negra que fertilizava o solo e que permitiu a prática da agricultura (actualmente o fenómeno das inundações do Nilo já não existe no Egipto graças à construção da barragem de Assuão ).
Os Egípcios dependiam portanto deste rio e das inundações para a sua
sobrevivência. Para além disso, o Nilo era a principal via de transporte , quer de pessoas, quer de materiais. Apesar da dependência do Nilo, o Antigo Egipto não deve ser considerado apenas um dom de condições geográficas especiais, como afirmou Heródoto ,
que talvez quisesse, com esta afirmação, explicar por que o Egipto já
era uma grande civilização enquanto os gregos ainda viviam em aldeias
isoladas. O ponto fundamental é que o Antigo Egipto também só existiu
graças ao seu sistema de governo centralizado, que organizava a enorme
mão-de-obra constituída pela massa de camponeses, e ao engenho de seus
construtores, que, desde épocas remotas, edificaram barragens e canais
de irrigação para tirar o máximo proveito das águas do Nilo.
Vale do rio Nilo
O rio Nilo era a fonte de vida do povo egípcio, que vivia basicamente da agricultura.
No período das cheias, as fortes chuvas sazonais ( junho a setembro ),
faziam o Rio Nilo transbordar, encobrindo grandes extensões de terras
que o margeavam, mas também, este fenômeno fertilizava o solo ao
depositar matéria orgânica (fertilizante de primeira qualidade) neste.
Além de fertilização do solo, o rio trazia grande quantidade de peixes e dava chances a milhares de barcos que navegavam sobre as águas fluviais.
Para o povo egípcio era uma verdadeira bênção dos deuses .
Aliás, o próprio rio era tido como sagrado. O historiador antigo
Herotodo fez conhecida a frase "o Egito é uma dádiva do Nilo" - idéia
essa que causa a ilusão de que a prosperidade alcançada por esse povo
se devia unicamente às condições naturais. Mas para o Egipto , o Nilo não era apenas um presente da natureza . Havia necessidade da inteligência, do trabalho ,
da aplicação e da organização dos homens. Após as cheias, as margens do
rio ficavam cobertar por húmus - adubo natural, que dava ao solo a
fertilidade necessária para o plantio. No tempo da estiagem, num
trabalho de união de forças e de conjunto, os egípcios aproveitaram as
águas do rio para levar a irrigação até terras mais distantes ou
construir diques para controlar as cheias, protegendo o vale contra
essas catástrofes terríveis. No período das cheias, os camponeses eram
encaminhadas para as cidades, onde realizavam outros trabalhos que não
a agricultura.
Com as cheias, desapareciam as divisas das propriedades agrícolas.
Assim, todos os anos era necessário o trabalho do homem para medir,
calcular, e isso ocasionou o desenvolvimento da geometria e da matemática .
Embarcações no rio Nilo
A área cultivada e habitada do Egipto
é longa e muito estreita,e o Nilo percorre-a toda.Por isso,nos tempos
em que não existiam estradas de ferro nem automóveis,o meio mais fácil
e mais rápido de viajar e transportar cargas pesadas era através de
embarcações de diversos tamanhos.Quando se tornava necessário efectuar
uma viagem,os egípcios pensavam imediatamente em barcos.Até acreditavam
que o Deus do sol ,Rá,navegava
através do céu,todos os dias,num barco do Nilo.O Nilo corre de sul para
norte,mas o vento sopra,geralmente,no Egipto,de norte para
sul.Portanto,um viajante que navegasse para norte,teria a corrente a
seu favor.Isto facilitava o emprego dos remos,quase não precisaria
servir-se das velas.Na viagem de regresso,o vento ajudá-lo-ia,de modo
que poderia utilizar as velas.Mas,se o vento parasse,ver-se-ia em
dificuldades para remar contra a corrente. Os barcos eram dirigidos por
meio de remos especiais à proa.Os tamanhos das embarcações iam desde os
pequenos barcos de junco até os grandes barcos mercantes de guerra.As
barcaças elegantes fabricadas para o rei,e para os nobres,ou para
transportar estátuas de deuses,eram pintadas com cores alegres e
enfeitadas com ouro.Tinham confortáveis cabines e velas de cores
berrantes.
O Alto Egipto e o Baixo Egipto
No Antigo Egipto distinguiam-se duas grandes regiões: o Alto Egipto e o Baixo Egipto .
O Alto Egipto (Ta-chemau) era a estreita faixa de terra com cerca de 900 quilómetros de extensão que tradicionalmente começava em Assuão e terminava na antiga cidade Mênfis (perto da moderna Cairo ).
O Baixo Egipto (Ta-mehu) correspondia à região do Delta , a norte de Mênfis, onde o Nilo se dividia em vários braços. Território plano favorável à caça e à pesca , foi aqui onde mais se fizeram sentir os contactos com o estrangeiro, sobretudo nos últimos séculos da história do Antigo Egipto . Também, por vezes, se distingue na geografia egípcia uma região conhecida como o Médio Egipto , que é o território a norte de Qena até à região do Faium.
Os nomes do Egipto
Vista aérea do rio Nilo perto de Luxor .
- Ver também: Etimologia do Egipto
Os antigos Egípcios usaram vários nomes para se referirem à sua terra. O mais comum era Kemet,
"a Terra Negra", que se aplicava especificamente ao território nas
margens do Nilo e que aludia à terra negra trazida pelo rio todos os
anos. Decheret, "a Terra Vermelha", referia-se aos desertos com
as suas areias escaldantes, onde os egípcios só penetravam para
enterrar os seus mortos ou para explorarem as pedras preciosas. Também
poderiam chamá-la Taui ( "as Duas Terras", ou seja, o Alto e o Baixo Egipto), Ta-meri ("Terra Amada") ou Ta-netjeru ("A Terra dos Deuses"). Na Bíblia o Egipto é denominado Misraim. A actual palavra Egipto deriva do grego Aigyptos (pronunciado Aiguptos), que se acredita derivar por sua vez do egípcio Hetkaptah, "a mansão da alma de Ptah ". Os habitantes actuais do Egipto dão o nome Misr ao seu país.
Os egípcios
Detalhe de pintura mural do túmulo de Nebamun que mostra dançarinas e uma instrumentista. Museu Britânico, c. 1350 a.C.
Os Antigos Egípcios foram o resultado de uma mistura das várias
populações que se fixaram no Egipto ao longo dos tempos, oriundas do
nordeste africano, da África Negra e da área semítica.
A questão relativa à " raça " dos antigos Egípcios é por vezes geradora de controvérsia, embora à luz dos últimos conhecimentos da ciência falar de raças humanas revela-se um anacronismo . Até meados do século XX , por influência de uma visão eurocêntrica , considerava-se os antigos Egípcios praticamente como brancos; a partir dos anos 50 do século XX as teorias do "afro-centrismo", segundo as quais os Egípcios eram negros, afirmaram-se em alguns círculos [5] .
Importa também referir que as representações artísticas são
frequentemente idealizações que não permitem retirar conclusões neste
domínio.
Os Egípcios tinham consciência da sua alteridade: nas representações
artísticas dos túmulos os habitantes do vale do Nilo surgem com roupas
de linho branco, enquanto que os seus vizinhos líbios e semitas com roupas de lã .
A língua dos Egípcios (hoje uma língua morta) é um ramo da família das línguas afro-asiáticas (camito-semíticas). Esta língua é conhecida graças à descoberta e decifração da Pedra de Roseta , onde se encontra inscrito um decreto de Ptolomeu V Epifânio (205-180 a.C.) em duas línguas (egípcio e grego) e em três escritas (caracteres hieroglíficos , escrita demótica e alfabeto grego ). Em 1822 o francês Jean-François Champollion decifrou
a escrita hieroglífica e a demótica que se encontravam na pedra,
permitindo assim o acesso aos textos do Antigo Egipto e o começo da Egiptologia .
O número de habitantes do Antigo Egipto oscilou segundo as épocas.
Durante o período pré-dinástico (4500-3000 a.C.) a população rondaria
os centenas de milhares; durante o Império Antigo (século XVII a XII
a.C.) situar-se-ia nos dois milhões, atingindo os quatro milhões por
altura do Império Novo. Quando o Egipto se tornou uma província romana
a população deveria ser cerca de sete milhões. Esta população habitava
nas terras agrícolas situadas nas margens do Nilo, sendo escassas as
populações que viviam no deserto. Ao contrário das civilizações da Mesopotâmia , o Antigo Egipto não desenvolveu uma importante rede urbana.
A situação das mulheres no Egito é claramente resumida no papel que
lhes é atribuído na decoração mais antiga de túmulos. No cimo da
hierarquia está a esposa, ou, por vezes, a mãe, do proprietário do
túmulo, vestida de forma simples mas elegante, sentada comodamente com
o marido a uma mesa de oferendas, numa estátua de grupo ou numa porta
falsa. Por vezes, ela acompanha o marido quando este observa cenas de
trabalho, mas é com mais frequencia representada quando o casal
apresenta oferendas, podendo esta distinção indicar que o lugar dela
era em casa. No outro extremo encontram-se cenas ou estatuetas de ervas
e de mulheres ocupadas em trabalho servis, fazendo pão e cerveja,
fiando ou tecendo. Também estas são atividades sedentárias,
provavelmente levadas a cabo nos aposentos domésticos de uma casa ou
propriedade. A cor da pela das mulheres, amarela, indica, entre outras
coisas, uma menor exposição ao sol do que o vermelho dos homens e, por
isso, uma existência mais fechada - como acontece com burocratas
masculinos de sucesso.
É possível que não fosse seguro às mulheres aventurarem-se a sair.
Num texto póstumo, Ramsés III afirma: "Tornei possível à mulher egípcia
seguir o seu caminho, podendo as suas viagens prolongar-se até onde ela
quiser, sem que qualquer outra pessoa a assalte na estrada", o que
implica não ter sido sempre este o caso.
Nos túmulos mais antigos as mulheres estão ausentes dos trabalhos
mais importantes e das diversões mais agradáveis, mas também não têm de
realizar as tarefas mais duras. os homens, por exemplo, fazem vinho, o
que é mais árduo do que fazer cerveja. Para além das cenas de tocadoras
de instrumentos e de dançarinas muito acrobáticas, o papel das mulheres
nos períodos mais antigos parece ter sido muito modesto, embora isso
possa ser devido a não podermos interpretar integralmente as fontes. No
Império Novo as mulheres passaram a ter uma importância muito maior, o
seu vestuário a ser mais esmerado e o conteúdo erótico das cenas em que
são representadas mais definido, se bem que ainda muito codificado. O
período tardio regressa praticamente ao antigo decoro.
As mulheres não tinham quaisquer títulos importantes e, à exceção de
alguns membros da família real e das rainhas reinantes, tinham pouco
poder político. O título que detinham mais vulgarmente era o de
"senhora da casa", termo de respeito que talvez signifique pouco mais
do que "Srª Dona". Quase todas eram analfabetas e, portanto, excluídas
da burocracia - a que é, de qualquer modo, pouco provável que tivessem
aspirado - e da maior parte das áreas intelectuais da cultura. Fato
sintomático do atrás referido é o de a idade a sensatez serem
qualidades respeitadas nos homens, representados como estadistas idosos
e corpulentos, mas não as mulheres. Nas representações dos túmulos não
se distingue sequer a mãe de um homem da sua mulher, sendo ambas
figuras jovens. O modo como são representadas as mulheres é,
obviamente, parte da interpretação que os homens faziam delas e
evidência um estado de coisas ideal. Na realidade, a influência das
mulheres talvez não fosse tão circunscrita e podem ter desempenhado
papéis muito mais variados do que as provas parecem sugerir.
As estruturas familiares, por exemplo, parecem extremamente
simplificadas. As normas da decoração de túmulos e estelas não deixam
qualquer espaço para a viúva ou viúvo, o divorciado, os homossexuais ou
para qualquer desvio em relação à monogamia - e, no entanto, sabe-se
que todos eles ocorreram. Há uma história que conta o romance entre um
rei e um oficial do exército e há episódios homossexuais no mito de
Hórus e de Seth. Nos Impérios Antigo e Médio havia alguma poligamia e o
rei podia ter muitas mulheres, embora apenas uma - para além da mãe, se
ainda fosse viva - tivesse o título de "grande esposa do rei".
História
Ver artigo principal: História do Antigo Egipto
Períodos e cronologia
Face posterior da Paleta de Narmer (reprodução exposta no Royal Ontario Museum, Canadá ).
A história do Antigo Egipto foi dividida pelos investigadores nos seguintes períodos:
- Época pré-dinástica e proto-dinástico (c. 4500-3000 a.C.);
- Época Tinita ou Época Arcaica (3000-2660 a.C.): I e II dinastias
- Império Antigo (2660-2180 a.C): III a VI dinastias
- Primeiro Período Intermediário (2180-2040 a.C.): VII a XI dinastias
- Império Médio (2040-1780 a.C.): XI e XII dinastias
- Segundo Período Intermediário (1780 a 1560 a.C.): XIII a XVII dinastias
- Império Novo (1560-1070 a.C.): XVIII a XX dinastias
- Terceiro Período Intermediário (1070-664 a.C.): XXI a XXV dinastias
- Época Baixa (664-332 a.C.): XXVI a XXX dinastias
- Época greco-romana
- Período ptolemaico (332-30 a.C.)
- Domínio romano (30 a.C.-359 d.C.) [6]
Primórdios
Em tempos recuados o Egipto foi uma savana . Quando se inicia o Neolítico ,
por volta de 6000 a.C., o território já tinha adquirido as
características áridas que o caracterizam actualmente. As principais
culturais do Neolítico no Egipto estão documentadas no Faium e em
El-Omari (norte) e em Tasa e Mostagueda (sul).
O período pré-dinástico (período anterior às dinastias históricas)
vê nascer no Alto Egipto três culturas: a badariense, a amratiense e
gerzeense. Esta última civilização acabará por se estender a todo o
Egipto. Nesta época produzem-se instrumentos de cobre e pedra, assim
como uma cerâmica vermelha decorada com motivos geométricos e animais
estilizados.
Teria sido Narmer , um rei do Alto Egipto, quem unificou as duas regiões por volta de 3100 a.C. Uma placa de xisto, conhecida como a Paleta de Narmer ,
comemora este evento. Um dos lados desta placa mostra Narmer usando a
coroa do Alto Egipto (a coroa branca), enquanto que o outro lado
mostra-o com a coroa do Baixo Egipto (a coroa vermelha) num cortejo
triunfal. Narmer é identificado por alguns egiptólogos com Menés , nome pelo qual é designado o primeiro rei do Egipto na lista de Maneton.
Época Tinita
Estela do rei Djet , I dinastia.
A Época Tinita corresponde às duas primeiras dinastias egípcias. De acordo com a informação transmitida por Maneton , o Papiro Real de Turim e a Lista Real de Abido o primeiro rei do Egipto unificado foi Menés , que alguns egiptólogos identificam com Narmer e outros com Aha .
Segundo Maneton estas dinastias tiveram como capital a cidade de Tis, cuja localização é até hoje desconhecida, embora se saiba que estaria no Alto Egipto . Porém, como revela a investigação, a capital do Egipto teria sido movida a certa altura para Mênfis .
Durante a I dinastia assistiu-se ao desenvolvimento da escrita hieroglífica .
Os soberanos da Época Tinita dinastias lançaram as bases para a futura
grandeza do Egipto, combatendo os Núbios (a sul), os Líbios (a oeste) e
os Beduínos (a leste), populações que tinham como principal objectivo
fixar-se no Egipto.
As manifestações artísticas deste período revelam já uma grande perfeição e o culto dos mortos e a mumificação já eram praticados. O culto da maior parte das divindades egípcias também se encontrado atestado.
Império Antigo e Primeiro Período Intermediário
Este período iniciou-se com a III dinastia , existindo algumas dúvidas quanto a quem terá sido o seu primeiro rei, se Sanakht ou Djoser (este último terá sido filho ou irmão do último rei da II dinastia).
A III dinastia manteve a capital em Mênfis, cidade que se transformou num grande centro económico e cultural.
Khufu. Única representação conhecida do rei da grande pirâmide ( Museu Egípcio ).
O rei Djoser apoiou-se na sua acção governativa no vizir (uma espécie de "primeiro-ministro") Imhotep . Para além de vizir, Imhotep foi também arquitecto e muito mais tarde foi transformado em deus, considerado filho da divindade Ptah . Foi ele quem projectou a construção da denominada "pirâmide em degraus" em Sakara (embora do ponto de vista geométrico não se trata de uma pirâmide), necrópole
na qual se situam a maioria dos túmulos reais do Império Antigo. Esta
"pirâmide", com 61 metros e que resultou da sobreposição de seis mastabas , seria o primeiro passo na evolução de uma arquitectura cada vez mais grandiosa que atinge o seu apogeu durante a IV dinastia , com as Pirâmides de Guiza . Estava integrada num conjunto mais amplo, um santuário onde os sacerdotes realizavam os ritos funerários para o rei defunto.
A IV dinastia teve em Seneferu
o seu primeiro rei que conduziu campanhas militares contra os habituais
inimigos dos egípcios (Núbios, Líbios e Beduínos). Destas lutas
resultou o domínio do Egipto sobre a Baixa Núbia. O segundo rei desta
dinastia, Khufu ,
(Quéops) ordenou a construção da maior das três pirâmides de Guiza
(Gizé), que possui cerca de 2,3 milhões de blocos de pedras e 146, 5
metros de altura (actualmente possui apenas 139 metros de altura). A
construção das pirâmides encontrava-se dependente de um clima de paz e
estabilidade. Ao contrário de uma ideia feita, que já se encontrava
presente nos autores da Antiguidade, estas pirâmides não foram
construídas por escravos, mas por trabalhadores desocupados durante o
período de cheias do Nilo. Segundo as concepções da época, o rei era um
intermediário entre os deuses e os seres humanos; assim participar na
construção das pirâmides que abrigariam o corpo do rei era considerado
como um acto de piedosa religiosa.
Na V dinastia ocorre a afirmação do clero de Heliópolis ,
cidade próxima de Mênfis, passando os reis a considerarem-se filhos do
deus Rá. Este deus adquiriu grande importância e para ele foram
construídos estruturas arquitectónicas conhecidas como templos solares,
dos quais apenas foram descobertos dois, o de Userkaf e de Niuserré .
A VI dinastia , composta por sete soberanos (entre os quais possivelmente a primeira mulher a comandar o Egipto, Nitócris [7] )
é geralmente considerada a última dinastia do Império Antigo. Durante a
parte final da dinastia, e particularmente durante o longo reinado de Pepi II (que teria durado 94 anos), assiste-se a uma decadência do poder real. Os administradores das províncias , os nomarcas, tinham-se tornado bastante poderosos e independentes do poder central.
O Primeiro Período Intermediário assistiu à afirmação de duas dinastias rivais, a de Heracleópolis Magna (Baixo Egipto) e a de Tebas
(Alto Egipto). As mudanças climáticas a que o território foi sujeito
neste período, que tornaram o clima mais seco, provocaram fracas
colheitas e a fome .
Império Médio
Cabeça de esfinge de Amenemhat III em alabastro ( Museu do Louvre ).
Mentuhotep II , rei de Tebas, conseguiu reunificar o Egipto, fixando a capital em Tebas. Amenemhat I (ou Amenemés), inicia a XII dinastia ,
transladando a capital para Iti-taui (nome que significa "aquela que
conquista o duplo país"), a sul de Mênfis. Constrói também fortalezas
no delta e na região a oeste cujo objectivo era evitar os ataques
estrangeiros. Progressivamente, os nomarcas perderam a sua autonomia
local e submetera-se ao poder dos reis.
O sucessor de Amenemhat I, Senuseret I
(Sesóstris), associado ao trono ainda durante a vida do seu pai, teve
como preocupação assegurar o controlo das minas da Núbia. Amenemhat III ,
sexto rei da XII dinastia, ordenou a realização de grandes trabalhos na
área do oásis do Faium, que se tornaria um importante centro agrícola.
Em Hawara, perto deste óasis, Amenemhat mandou construir um grande
templo funerário, que Heródoto considerava mais belo que as grandes
pirâmides e que está hoje perdido devido à sua destruição. O último
soberano desta dinastia foi uma mulher, Sebekneferu , a primeira mulher cujo governo do Egipto é atestado com segurança.
O Egipto do Império Médio manteve relações diplomáticas com Fenícia e com Creta , tendo também realizado expedições comerciais ao Punt .
A XIII dinastia, com dezassete faraós - o que revela uma certa
instabilidade política - assistiu à tomada das fortalezas do sul do
Nilo pela Núbia. Por volta de 1800 a.C. povos do Médio Oriente fixam-se
na região oriental do Delta. Em consequência desta invasão os soberanos
egípcios deixam o delta, a caminho do sul do país.
Segundo Período Intermediário
Os egípcios referiam-se aos povos semitas que se fixaram no delta como Heka-khasut, "chefes de terras estrangeiras". Estes povos são conhecidos pelo seu nome grego, Hicsos .
Os Hicsos eram povos oriundos da região da Síria que progressivamente
usurparam o poder, tomando o título de faraós. Dominaram o Egipto a
partir da sua capital, Aváris , no nordeste do delta. A XV e XVI dinastias da história do Antigo Egipto foram constituídas por Hicsos.
Os Hicsos introduziram elementos novos na civilização egípcia como o cavalo , os carros de guerra, novos métodos de fiação e tecelagem e novos instrumentos musicais.
A XVII dinastia, sediada em Tebas, era uma dinastia nacional,
contemporânea à dos Hicsos. Se de início se tornam vassalos dos Hicsos,
aos poucos começam a expulsá-los.
Império Novo
Hatchepsut .
Ahmés (ou Amósis), primeiro rei da XVIII dinastia , conclui a tarefa de expulsão dos Hicsos, dando início ao Império Novo .
A reunificação do país foi realizada a partir da cidade de Tebas, que
seria a capital do Egipto durante a maior parte deste período. Ahmés
esforçou-se por melhorar a economia, tendo as fronteiras do país sido
alargadas para oeste e para o sul. Este rei iniciou uma política
expansionista e militarista que seria continuada pelos seus sucessores.
Durante a XVIII Dinastia o Antigo Egipto controlaria territórios que
compreendem o que é hoje o Sudão, bem como a região da Palestina e da
Síria, até ao rio Eufrates .
Tutmés III ,
quinto rei desta dinastia, foi talvez o melhor representante desta
tendência imperalista, com as suas dezassete campanhas militares na
região da Síria-Palestina. Hatchepsut , a sua madrasta, tinha governado o Egipto na sua menoridade. Hatchepsut tinha sido esposa e meia-irmã de Tutmés II ,
pai de Tutmés III. De início a rainha opta por governar na qualidade de
representante de Tutmés III, mas em poucos anos decide adoptar títulos
reservados aos faraós (como "Senhora dos Dois Países"), mandando erguer
dois obeliscos em Karnak (acto reservado aos faraós). Para legitimar o seu governo, Hatchepsut apresentou-se como filha de Amon , deus que se teria unido à sua mãe. Foram duas década marcadas em geral pela paz, com o envio de uma expedição ao Punt .
Após a morte de Hatchepsut, Tutmés III dedicou-se a apagar as
inscrições que continham o nome da madrasta. Foi sucedido pelo seu
filho Amen-hotep II , que foi por sua vez sucedido por Tutmés IV . Amen-hotep III governou durante quarenta anos, numa era que seria marcada pela paz, prosperidade e pelo florescer das artes.
Estátua de Ramsés II em Abu Simbel .
O seu filho, Amen-hotep IV , inicia uma revolução religiosa encaminhada no sentido do " monoteísmo ", na qual o culto deveria ser reservado a Aton , o disco solar. Este faraó, cuja esposa foi a famosa Nefertiti , alterou o seu nome para Akhenaton
("O Esplendor de Aton") e abandonando Tebas, fixa-se numa nova capital
mandada por si edificar, Akhetaton ("Horizonte de Áton"), a actual Amarna
(por esta razão este conturbado período é designado como o "período de
Amarna"). Os sucessores de Akhenaton, entre os quais o "faraó-menino"
Tutankhamon, conhecido pelos tesouros do seu túmulo, abandonaram estas
concepções religiosas, retornando às antigas.
Ramsés II , terceiro rei da XIX dinastia, entrou em guerra com os Hititas da Ásia Menor por causa do controlo da Síria. Na Batalha de Kadesh
nenhuma das partes se consagrou vencedora, apesar das fontes egípcias
apresentarem o episódio como uma vitória do país. O conflito foi
terminado com um tratado de paz, o primeiro de que há conhecimento na
história da humanidade. Os Egípcios e os Hititas dividem o controlo
daquela região e Ramsés casa com uma das filhas do rei hitita. Foi
também Ramsés II que ordenou a construção dos templos de Abu Simbel .
Para aproximar-se de seus inimigos e dos territórios que pretendia
dominar, Ramsés II mandou construir uma nova capital, perto do delta do
Nilo. Esta magnífica cidade, a que Ramsés deu o nome de Pi-Ramsés ,
tinha uma incrível estrutura militar, com um grande quartel-general que
abrigava, inclusive, cavalos para a guerra e um complexo industrial
bélico que produzia todo o tipo de armas e também carros de batalha.
Ramsés II também dispunha de uma rede de fortalezas e um exército
profissional bem pago. Ramsés III , da XX dinastia, teve de combater a invasão dos Povos do Mar e dos Líbios, que conduziram o Egipto a um novo período de decadência. Os últimos reis da XX dinastia tiveram um papel apagado.
Terceiro Período Intermediário e Época Baixa
Durante o Terceiro Período Intermediário o Egipto é dominado por algumas dinastias de origem estrangeira. A partir da cidade de Tânis a XXI dinastia governou apenas o Delta, enquanto que no sul existia uma dinastia paralela composta pelos sumo sacerdotes de Amon . Os membros da XXII e XXIII dinastias são de origem líbia, embora já tivessem adoptado a cultura egípcia. No século VIII a.C. , a região da Alta Núbia, o Kush , conquista o Egipto, onde instala um dinastia, a XXV .
Os Assírios
acabariam por derrotar a dinastia núbia, impondo como rei Psametek I
(primeiro soberano da XXVI dinastia), um princípe da cidade de Sais, no
Delta. Contudo, Psametek acabará por se rebelar contra os Assírios,
tendo reunificado o país. O último rei da XXVI dinastia, Psametek III , seria derrotado pelos Persas de Cambises II que ocupam o Egipto a partir de 525 a.C. e constituem a XXVII dinastia.
Templo de Edfu dedicado ao deus Hórus , uma obra construída durante a era ptolomeica.
A invasão de Cambises ficou conhecida pela estratégia aplicada pelos
persas: sabendo que os Egípcios tinham verdadeiro culto e temor aos
gatos, Cambises colocou, a frente de cada linha de invasão, balaios
repletos de gatos, que fizeram com que a população recuasse e não
resistisse tanto à invasão.
Época Greco-romana
Em 404 a.C. os Egípcios conseguiram reconquistar o poder, mas os Persas tomam de novo o país em 343 a.C. Em 332 a.C. Alexandre Magno conquista o Egipto; quando morre, em 323 a.C. , Ptolemeu , um dos seus generais, torna-se governador e em 305 a.C. rei. Ptolemeu, de origem macedónia , dá origem à dinastia dos Lágidas que governa o Egipto nos próximos três séculos. A última representante desta dinastia foi a famosa rainha Cleópatra VII , derrotada em 31 a.C. pelos Romanos na Batalha de Ácio . Em 30 a.C.
o Egipto transformou-se numa província de Roma, administrada por um
prefeito de origem equestre. Enquanto província, o Egipto teve uma
importância fundamental para Roma, pois era do seu território que vinha
o cereal do império.
Sociedade
Escriba sentado (IV dinastia, c. 2620-2500 a.C.)
A sociedade do Antigo Egipto apresentava uma estrutura fortemente hierarquizada .
Em termos gerais podem distinguir-se três níveis com uma importância
decrescente: o nível composto pelo faraó, nobres e altos funcionários;
o nível constituído por outros funcionários, por escribas, altos
sacerdotes e generais; e por último, o nível composto pelos
agricultores, artesãos e sacerdotes, onde se enquadrava a larga maioria
da população.
No período mais antigo da história egípcia os altos cargos da
administração permaneciam dentro da família real. Apenas mais tarde é
que os cargos passaram para uma elite e tornaram-se hereditários. A
possibilidade de ascender a um cargo em função de mérito também
existiu. A hereditariedade nas ocupações era característica do Antigo
Egipto: esperava-se que um filho seguisse a profissão do pai.
Apesar de ser praticamente igual ao homem do ponto de vista legal, a mulher
no Antigo Egipto estava relegada a uma posição secundária. Os seus
papéis principais eram os de esposa, mãe ou amante. Encontraram-se em
geral excluídas dos cargos de administração e do governo, com excepção
de algumas rainhas que governaram o Egipto como último recurso
(enquanto regentes na menoridade do faraó ou em casos em que o faraó
não teve filhos do sexo masculino).
Uma importante esfera de acção da mulher era a religiosa . Durante a Época Baixa o cargo de adoradora divina de Amon
em Tebas implicou uma certa dose de poder e riqueza; porém, as mulheres
que ocuparam este cargo foram em geral filhas ou esposas do faraó.
Um casal com o seu filho (IV Dinastia).
O casamento era monogâmico
e não era sancionado pela religião. Não existia uma cerimónia de
casamento, nem um registro deste. Aparentemente bastava um casal
afirmar que queria coabitar para que a união fosse aceite. Os homens
casavam por volta dos dezesseis, dezoito anos e as mulheres por volta
dos doze, catorze anos. A infidelidade feminina era mal vista e poderia
ser motivo de divórcio . Os homem com uma posição económica mais elevada poderia ter, para além da esposa legítima (nebet-per,
"a senhora da casa"), várias concubinas, o que era visto como um sinal
de riqueza. A harmonia familiar era bastante valorizada pelos Egípcios:
vários textos da literatura sapiencial recomendam o homem a tratar bem
a sua esposa e a ter vários filhos.
Na corte faráonica existiram casos de bigamia e de poligamia ,
onde o rei, para além da esposa principal, mantinha várias esposas
secundárias e amantes. Um dos casos mais conhecidos foi o de Ramsés II , que para além de ter tido como esposa principal Nefertari , teve outras mulheres; destas uniões teriam mesmo resultado 150 filhos.
Homens e mulheres usavam adornos, como pulseiras , anéis e brincos. Estes adornos continham pedras preciosas e frequentemente amuletos ,
dado que os Egípcios eram um povo supersticioso, que acreditava por
exemplo na existência de dias nefastos. Os dois sexos usavam também maquilhagem , que não cumpria apenas funções estéticas, mas também higiénicas. As pinturas para os olhos eram de cor verde ( malaquite ) e negra. Óleos e cremes eram aplicados sobre o cabelo e a pele como forma de hidratação num clima seco e quente. Alguns egípcios rapavam completamente o cabelo (para evitar piolhos ) e usavam perucas.
A escravatura não teve no Antigo Egipto a dimensão que alcançou em outras civilizações da Antiguidade , como na Grécia ou em Roma .
Foi bastante expressiva no Império Novo, em resultado das campanhas
militares egípcias na Ásia, das quais resultaram muitos prisioneiros.
Os escravos poderiam trabalhar no exército, no palácio real e nos
templos. As suas condições de vida não eram muito diferentes das dos
trabalhadores livres; podiam arrendar terras e casar com mulheres
livres. Um escravo poderia ser libertado a qualquer momento, bastando
para tal uma declaração do dono perante testemunhas.
Governo
Máscara funerária de Tutankhamon ( Museu Egípcio do Cairo ).
O topo da pirâmide política e social do Antigo Egipto era ocupado pelo rei ou faraó . O rei vivo era encarado como uma personificação do deus Hórus ,
enquanto que o rei morto que o tinha antecedido era associado a Osíris,
pai de Hórus, independentemente de existir uma relação familiar entre
soberanos. De uma maneira geral não se desenvolveu um culto em torno da
pessoa do rei, com excepção de alguns monarcas do Império Novo . A partir da V dinastia os reis apresentam-se também como filhos de Ré ,
o deus solar. Durante o Primeiro Período Intermediário a imagem divina
do rei enfraqueceu-se, tendo a mesma sido restaurada a partir da XII dinastia para atingir o seu apogeu na XVIII dinastia .
Em teoria o rei era dono de tudo, inclusive dos seus súbditos. Era o
comandante supremo do exército, funcionando também como a máxima
autoridade judicial: os Egípcios poderiam recorrer de uma decisão
judicial ao rei. Era igualmente o sumo-sacerdote do Egipto, o elo entre
os homens e os deuses. Como não era fisicamente possível ao rei estar
presentar em todos os templos egípcios para celebrar os cultos, este
delegava o seu poder religioso aos sacerdotes que conduziam as
cerimónias em seu nome.
Embora existissem estas concepções "absolutistas" da figura do rei,
este convivia com limitações ao seu poder, oriundas de conselheiros,
funcionários, dos nobres, das famílias ricas, do clero e dos soldados,
meios nos quais se teciam as intrigas políticas que poderiam conduzir
ao assassinato de um rei e ao início de uma nova dinastia.
Para além do seu nome de nascimento, os reis egípcios tinham outros nomes. A partir da V dinastia a titulatura
do reis incluía cinco nomes reais: nome de Hórus, nome das Duas
Senhoras, nome de Hórus de Ouro, prenome e nome; estes dois últimos
nomes eram inscritos no interior de uma cartela .
Os reis do Antigo Egipto são habitualmente denominados como " faraós ", mas esta palavra, que deriva de per-aá, não foi a mais usada no Egipto para se referir ao monarca; os Egípcios usavam termos como nesu (rei) ou neb (senhor). O termo per aá,
que significa "grande morada", aplicava-se de início ao palácio real;
só a partir da XVIII dinastia é que o termo foi também usado para se
referir à pessoa do rei e em larga medida por influência dos povos
estrangeiros.
A rainha era denominada hemet nesut, "esposa do rei"; tinha
em geral uma origem real, sendo por vezes irmã do rei, mas filha de
outra mãe. Durante a época do Império Novo algumas rainhas consortes
desempenharam um importante papel político junto dos esposos, como Ahmés-Nefertari , Tié ou Nefertiti . Habitualmente o filho mais velho da rainha principal sucedia ao pai.
O rei era detentor de uma estética própria, resultado do uso de
certas roupas e de determinadas insígnias que lhe estavam reservadas.
No queixo colocava uma barba postiça, delgada e rectangular (que a
própria Hatchepsut , apesar de ser uma mulher, apresenta em algumas representações artísticas) e na cabeça usava um pano, o " nemes ", à frente do qual encontrava-se uma serpente denominada uraeus que se acreditava poder repelir os seus inimigos. O soberano possuía várias coroas , vistas como objectos detentores de uma energia própria, sendo as mais importantes a coroa branca do Alto Egipto (hedjet) e a coroa vermelha do Baixo Egipto (decheret), que combinadas formavam o pschent ou coroa dupla. Para além das coroas, existiam os ceptros, dos quais se destacam o hekat (uma espécie de báculo ) e o nekhakha (um látego). O faraó poderia ser simbolicamente representado como uma esfinge , e era associado a animais como a pantera , o leão e o boi .
A figura política mais importante ao seguir ao rei era o tjati , cargo habitualmente traduzido como " vizir ",
o que constitui um erro, visto que os vizires só surgem muito mais
tarde e entre as dinastias islâmicas. O detentor do cargo, que surgiu a
partir da IV dinastia, possuía poderes judiciais, supervisionava os
grandes projectos de construção e aconselhava o rei. Em alguns períodos
da história egípcia existiram dois tjati, um para o Alto Egipto e outro
para o Baixo Egipto. O tjati era tido em grande consideração pela
população, que se referia a ele como o "amigo do Egipto".
O Antigo Egipto dividia-se em nomos ou províncias (em egípcio, sepat).
Durante a maior parte da história egípcia existiram 42 nomos, 20 no
Baixo Egipto e 22 no Alto Egipto. À frente de cada nomo encontrava-se
um governador (nomarca), cargo de início obtido por nomeação para
passar a ser hereditário. Estes governadores, que em determinados
períodos da história egípcia governavam um estado dentro do estado,
cumprem as ordens do rei, conduzem os trabalhos públicos e aplicam a
justiça.
Economia
Detalhe de pintura mural no túmulo do funcionário Sennedjem (XIX dinastia), c. 1200 a.C.
Pintura mural do túmulo do vizir Rekhmiré, c. 1500-1450 a.C.
A economia do Antigo Egipto assentava na agricultura .
Em teoria todas as terras pertenciam ao rei, mas a propriedade privada
foi uma realidade. Os documentos revelam que a partir da IV dinastia
afirmou-se uma tendência para a privatização do solo, resultado de
doações de terras por parte do rei aos funcionários ou da aquisição
desta por parte dos mesmos. Por altura da V dinastia os templos possuíam também grandes propriedades.
Quando terminavam as inundações do Nilo surgiam nas aldeias egípcias
uma equipa de funcionários que marcava as bordas das terras que
poderiam a partir de então ser cultivadas pelos camponeses. A plantação
decorria no mês de Outubro, sendo as sementes fornecidas aos
agricultores pelo palácio real. As culturas mais importantes eram o trigo (tipo emmer) e cevada , que permitiam fazer o pão e a cerveja , alimentos que eram a base da alimentação egípcia.
Os agricultores lavravam a terra com um arado puxado por bois ,
abriam canais e levantavam diques. A época das colheitas ocorria em
Abril, altura em que as espigas eram levadas para a eira, onde as patas
dos bois as debulhavam. Uma vez separados os grãos da palha, estes eram
colocados em sacas que eram enviadas para os celeiros reais. Estes
celeiros armanezavam as colheitas que eram distribuídas pelos
funcionários e pela população em geral.
A população que não trabalhava nos campos dedicava-se a várias tarefas como a produção de pão e mel, a fabricação de cerveja, a olaria e a tecelagem . A pesca era praticada ao anzol ou com rede.
O subsolo do Antigo Egipto era rico em materiais de construção, bem
como em pedras preciosas. Entre os primeiros destacavam-se os granitos cor de rosa das pedreiras do Assuão , o alabastro das proximidades de Amarna, o pórfiro e os basaltos . As pedras preciosas eram extraídas do Sinai ( turquesa e malaquite ) e dos desertos do leste e do oeste ( quartzo , feldspato verde, ametista e ágata ).
Desde a época do Império Antigo que o Egipto tinha contactos comerciais com a região siro-palestinense ( Biblos ), de onde vinha a madeira, escassa e necessária no Egipto para fabricar o mobiliário e caixões. Da Núbia o Egipto exportava o ébano , as plumas de avestruz , as peles de leopardo , incenso , marfim e sobretudo o ouro . Todo o comércio estava baseado na permuta de bens, já que a moeda só surgiu muito mais tarde, na Lídia do século VIII ou VII a.C.
Também produzia: linho, papiro e legumes.
Religião
Ver artigos principais: Religião no Antigo Egipto , Mitologia egípcia .
Pendente em ouro de Osorkon II (XXII dinastia). O deus Osíris (ao centro) acompanhado pelo seu filho Hórus e esposa, Ísis , formando uma tríade.
Não existiu propriamente uma religião entre os Egípcios, no sentido contemporâneo da palavra (a própria palavra "religião" não existia na língua egípcia).
A cultura egípcia era impregnada de religiosidade e a versão oficial
da história egípcia era de caráter religioso. Em períodos mais
recentes, até a própria economia se organizava à volta dos templos - o
que não significa, necessariamente, que se tivesse tornado mais
religiosa, já que os templos não eram, possivelmente, muito diferentes
de outros senhorios. fosse como fosse, o que é claro é que o padrão de
secularização, que temos tendência a tomar por certo no desenvolvimento
das sociedades, não estava presente. A instituição central da monarquia
acabou por perder o seu carisma, mas noutros aspectos tornou-se, de
forma nítida, em vários aspectos: o oficial, de que sabemos bastante, a
esfera funerária, que está também bem representada, e as práticas
cotidianas da maioria da população, separadas, em larga medida, do
culto oficial e mal conhecidas.
A religião egípcia é tradicionalmente classificada como uma religião politeísta ,
conhecendo-se mais de duas mil divindades. Tratava-se de uma religião
nacional, sem aspirações universais, que não era detentora de uma
escritura sagrada. O mais importante na religiosidade egípcia não eram
as crenças, mas o culto às divindades; assim, a religião egípcia
preocupava-se mais com a ortopraxia do que com a ortodoxia .
Alguns deuses eram adorados localmente, enquanto que outros assumiam um
carácter nacional, sobretudo quando estava associados com determinada
dinastia.
Os deuses eram ordenados e hierarquizados em grupos. O agrupamento
básico era em três deuses, em geral um casal e o seu filho ou filha
(tríade). Assim, por exemplo, a tríade da cidade de Tebas era composta por Amon , Mut e Khonsu . Os agrupamentos de divindades mais importantes foram a Enéade de Heliópolis e a Ogdóade de Hermópolis , que eram acompanhados por um relato sobre a criação do mundo.
As representações dos deuses poderiam ser antropomórficas (forma
humana), zoomórficas (forma de animal) ou uma combinação de ambas.
Contudo, os Egípcios em momento algum acreditaram, por exemplo, que o
deus Hórus ,
muitas vezes representado com um homem com cabeça de falção, tivesse de
facto aquele aspecto. A associação dos deuses com determinados animais
relacionava-se com a atribuição ao deus de uma característica desse
animal (no caso de Hórus a rapidez do falcão).
Os templos no Antigo Egipto eram a morada da divindade na terra. Ao
contrário dos templos religiosos de hoje em dia, eles não eram
acessíveis às pessoas comuns: apenas poderiam penetrar nas suas regiões
mais sagradas, o faraó e os sacerdotes. Cada templo era dedicado a uma
divindade e dentro dele achava-se a estátua dessa divindade guardada no
naos ;
diariamente a estátua era lavada, perfumada, maquilhada e alimentada
pelos sacerdotes. Em determinadas alturas do ano, a estátua saía do
templo numa procissão, à qual a população assistia; durante o percurso
actuavam músicos e cantores.
Os Egípcios acreditaram numa vida para além da morte .
Em princípio esta vida estava apenas acessível ao rei, mas após o
Primeiro Período Intermediário esta concepção alargou-se a toda a
população. Para aceder a esta vida era essencial que o corpo do defunto
fosse preservado, razão pela qual se praticou a mumificação .
Segundo crenças egípcias, para se conseguir a vida eterna , o morto deveria mostrar que não tinha pecados . Então, seu coração
era colocado numa balança, tendo de se equilibrar com a "pena da
verdade". Caso tivesse sucesso, o morto seria julgado puro. Caso não,
seria levado à destruição eterna.
Ciência
Uma página do Papiro Ebers, "enciclopédia" médica egípcia.
Não se pode falar em ciência no Antigo Egipto (e em geral na Antiguidade )
tendo como referência o conceito actual. O conhecimento entre os
antigos Egípcios estava associado aos escribas, às classes sacerdotais
e aos templos. Numa parte destes encontravam-se as " Casas de Vida " (Per Ankh), nome dado a uma área do templo que funcionava como biblioteca
e arquivo, onde também se ministravam conhecimentos e se copiavam os
textos de carácter médico, astronómico e matemático. Tendo em vista que
a religião era um dos pontos no qual assentava a civilização do Antigo
Egipto, a sua influência estende-se e mistura-se com a esfera do saber,
que não surgia como autónoma.
A medicina
foi a disciplina que mais se desenvolveu entre os egípcios, sendo
famosa na Antiguidade, em particular entre os Gregos. A classe médica
dividia-se entre médicos do povo e médicos reais; alguns médicos
trabalhavam como clínicos gerais, enquanto que outros eram
especialistas em determinada área. As escolas médicas mais famosas eram
as das cidades de Heliópolis e a de Sais. Os remédios eram compostos
por vários elementos, na maioria oriundos do reino vegetal, mas
recorria-se também a elementos que do ponto de vista contemporâneo
parecem estranhos, como os excrementos dos animais, o sangue de lagarto , dente de porco ou pó de natrão. Eram aplicados sob a forma de poção, pílula ou em cataplasma.
No campo das matemáticas ,
os egípcios utilizavam um sistema de cálculo baseado na mão (cinco
dedos). A partir daqui vinham as dezenas, dando origem à numeração
decimal que se tornaria a base da aritmética egípcia. Calcularam a superfície dos rectângulos e o volume da esfera, dando a pi o valor de 3,14. Conhece-se hoje em dia esta matemática graças ao Papiro Rhind e ao Papiro de Moscovo.
Cultura
Literatura
Ver artigo principal: Literatura do Antigo Egipto
De uma forma geral, as obras literárias do Antigo Egipto eram anónimas; a literatura do Antigo Egipto
inclui textos de carácter religioso (como os hinos às divindades), mas
igualmente obras de natureza mais secular, como textos sapienciais, contos e poesia amorosa.
Datam da época do Império Antigo
os primeiros textos de literatura sapiencial, um género que consistia
numa reflexão dos "sábios" (vizires, escribas) sobre a vida,
pretendendo transmitir determinados ensinamentos e apelando à prática
de certas virtudes (moderação, justiça, o respeito aos pais...); deste
género destaca-se o Ensinamento de Ptah-hotep , que em trinta e seis máximas expõe as reflexões do seu autor (um vizir) sobre as relações humanas.
Do Primeiro Período Intermediário salienta-se a Profecia de Ipuver, onde autor aborda a decadência política e moral do Egipto durante esta era.
Do Império Médio destacam-se os contos, como as Aventuras de Sinué e o Conto do Náufrago .
A primeira obra foi provavelmente o texto literário mais popular entre
os egípcios, tendo em conta a grande quantidade de cópias do texto que
se conhecem. Relata as aventuras do herói homónimo que foge do Egipto
para a região da Síria-Palestina antes de regressar ao seu país, onde é
acolhido na corte de Senuseret III . Para alguns investigadores algumas destas histórias de aventuras podem ter influenciado a literatura árabe , em concreto os relatos sobre as aventuras do marinheiro Sinbad .
Durante o Império Novo surge a poesia amorosa, com temas de paixão e erotismo
presente nos textos do Papiro Cester Beatty I, do Papiro Harris 500 e
num fragmento do Papiro de Turim. Akhenaton cultiva a literatura
religiosa, com hinos dedicados a Aton. Prossegue a tradição da
literatura sapiencial, com o Ensinamento de Anii e o Ensinamento de Amenemope.
Arte
Ver artigo principal: Arte do Antigo Egipto
Busto de Nefertiti .
A arte do Antigo Egipto
esteve fundamentalmente ao serviço da religião e da realeza. Esta arte
obedeceu a cânones precisos ao longo dos seus três mil anos de
existência, sendo desvalorizada a inovação.
Uma das regras mais importantes seguidas pelos artistas era a lei da frontalidade , segundo a qual na figura humana o tronco era representado de frente, enquanto que a cabeça, pernas, pés e olhos de perfil.
Do Império Antigo notabilizaram-se as pirâmides , mas também deve ser realçado o baixo-relevo e a pintura
que já na época possuíam um elevado grau de perfeição. O Império Novo
corresponde à era mais brilhante da arte, fruto da riqueza do Egipto
durante este período. São desta época os templos de Karnak e Luxor e os
túmulos escavados nas falésias do Vale dos Reis .
Durante o período de Amarna, que corresponde às inovações religiosas de Akhenaton ,
os artistas rompem com as antigas convenções e aproximam-se de uma arte
que almeja o realismo, com representações de afecto entre membros da
família real. O próprio Akhenaton é mostrado de uma forma diferente,
com o crânio alongado e uma silhueta efeminada; não se sabe ao certo se
esta particularidade na representação do faraó seria uma nova tendência
artística ou o resultado de algum tipo de deformação congénita de
Akhenaton. Foi no "atelier" do escultor de Akhenaton, Tutmés, que foi
encontrado em 1912 o famoso busto de Nefertiti, uma obra inacabada.
As formas da arte figurativa egípcia - escultura, relevo e pintura -
adquiriram caráter inconfundível por volta do início do período
dinástico. Ao mesmo tempo que o nível das formas de arte decorativa e
funcional, tais como obras de pintura de motivos, manufatura de vasos
de pedra, escultura de marfim, mobiliário e trabalho em metal, era
muito elevado, a arquitetura evoluía rapidamente de então em diante,
continuando a desnvolver-se com o domínio de novos materiais e a
introdução de novas formas. Desde o início, as obras de arte de vários
gêneros constituem o mais importante legado do antigo Egito, legado
este extraordinariamente homogêneo. As alterações na arte ao longo dos
diferentes períodos refletem as alterações na sociedade clarificam-nas,
embora a arte procure a sua inspiração mais noutra arte do que no
mundo. A arte egípcia é superficialmente abordável, mas a outro nível,
é muito estranha à arte ocidental.
Muito poucas obras egípcias foram criadas como "arte pela arte".
Todas tinham uma função, ou como objetos de uso diário, ou, o que é
mais comum entre os que se conservam, num contexto religioso ou
funerário. Tem-se dito, por vezes, que não deviam ser designadas por
"arte", mas não existe necessariamente contradição entre o caráter
artístico de um objeto e a sua função. Poder-se-ia dizer que a
qualidade artística de um objeto é o elemento estético adicional ao seu
carater funcional. O estatuto da arte eípcia como "arte" no espírito
dos egípcios era de grau diferente do da arte ocidental aos olhos dos
ocidentais, mas não existe diferença fundamentais em espécie. De fato,
os gêneros egípcios e ocidentais assemelham-se extraordinariamente. No
Egito, tal como na sociedade ocidental, a arte é um importante foco de
prestígio.
A escultura foi marcada pela escolha de materiais resistentes, como o basalto ,o pórfiro , xisto , diorito e o granito .
Algumas estátuas serviram um objectivo político, sendo colocadas diante
dos templos para que o povo as visse, mas tinha sobretudo um objectivo
religioso. Exprimem de uma maneira geral uma posição fixa, com os
braços colados ao corpo (as estátuas egípcias influenciaram as estátuas
gregas mais antigas sobre jovens, conhecidas como kouros ). As estátuas que se achavam nos túmulos eram consideradas como uma espécie de corpo de substituição; o ka e o ba
deveriam reconhecer o rosto onde habitavam, não sendo por isso
relevante representar os defeitos do corpo. Algumas estátuas atingiam
proporções grandiosas, como a Esfinge do planalto de Guiza e os Colossos de Memnon . Saliente-se ainda a invenção da "estátua-cubo" pelos Egípcios, na qual apenas a cabeça emerge do bloco de pedra.
A óbvia semelhança estilística entre a escultura, o relevo e a
pintura baseiam-se, em parte, em técnicas que lhes são comuns. ondem
existir razões mais fundamentais para os rígidos exitos da escultura,
uma vez que esta característica se encontra quase tão espalhada pelo
mundo como a representação a duas dimensões, sem perspectiva, mas tais
razões não são claras. Qualquer que seja a resposta a esta pergunta
mais geral, a continuidade e o desenvolvimento paralelo das duas formas
são notáveis.
Quase todas as estátuas mais importantes representam uma figura que
olha em frente, numa linha perpendicular ao plano dos ombros e cujos
membros estão restringidos dentro dos mesmos planos. A maior parte das
vezes encontra-se em repouso, sem estar ocupada em nenhuma atividade. A
interação orgânica das partes do corpo quse não é indicada, de modo que
as estátuas se assemelham a um "diagrama" a duas dimenões, formando um
algomerado de partes separadas. A analogia sugere que este pode ser um
aspecto básico da representação e não um elemento de estilo. Parte da
semelhança entre os gêneros é devida à dependência da escultura em
relação ao desenho, numa versão modificada da representação egípcia
normal, a duas dimensões.
As principais exceções à geometria rígida são as cabeças que olham
para cima, talvez para ver o sol, ou para baixo, como as estátuas de
escribas, para olharem para um papiro desenrolado no colo. As figuras
ajoelhadas, têm, por vezes, os músculos das pernas refletidos
mostrando, ao que parece, que a sua pese é um gesto momentâneo da
deferência. Pormenores como este, e leves indicações da coerência
orgânica do corpo, são restritos às melhores obras, em que a rigidez
normal é tomada como certa e suavizada, provavelmente por razões
estéticas. Existem também algumas obras pequenas, sobretudo de madeira
e de finais de 18ª dinastia, que se afastam das regras, representando
rotações e contraposto, e mantendo apenas vestígios dos conjuntos
normais de eixos de definição. Estas são importantes porque mostram que
as formas estritas não eram as únicas de que os Egípcios dispunham.
Nas artes parietais, o baixo-relevo
e a pintura andam frequentemente associados. Durante o Império Médio o
baixo-relevo surge pintado, enquanto que no Império Novo a pintura
tornou-se uma arte autónoma. Os temas mais frequentes da pintura são os
retratos de família, as batalhas, os deuses e as paisagens. A cor
desempenhava nela uma função informativa: os corpos masculinos são
pintados a vermelho-acastanhado e os femininos a amarelo.
É interessante notar que, quando homens comuns são retratados perto
de divindades como o faraó, seus olhos são pintados para os lados, e
não para a frente, uma vez que a figura sagrada do deus não poderia ser
encarada de frente.
Em duas e em três dimensões, a base do trabalho do artista era o
desenho preparatório. utilizavam-se grelhas quadradas e conjuntos de
linhas de orientação, de modo a assegurar uma representação exata. Para
o corpo humano, as grelhas baseavam-se, até à 26ª dinastia, num
quadrado do tamanho do punho da figura a desenhar, que se relaciona
proporcionalmente com todas as outras partes do corpo. Em teoria, a
grelha tinha de ser desenhada de novo para cada figura de tamanho
diferente, mas, na prática, as figuras de menos importância eram
talvez, muitas vezes, desenhadas livremente. Os desenhos preliminares
eram inscritos dentro das grelhas e transformados no produto final por
um processo de correção e laboração, em váras fases. É evidente que os
artistas trabalhavam em grupos, sendo, provavelmente, especializados em
tarefas que realizavam.
Menkauré e Khamerernebti II .
|
"Estátua-cubo".
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Pintura de Nefertari no seu túmulo.
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Interior do templo de Ramsés III em Medinet Habu.
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O legado do Antigo Egipto
Obelisco de Luxor na Place de la Concorde , Paris .
Apesar da civilização egípcia ter terminado há dois mil anos, parte do seu legado continua vivo no mundo actual.
Os Egípcios possuíam um calendário de 365 dias e doze meses e já dividiam o dia em vinte e quatro horas. Algumas palavras da língua portuguesa , como alquimia, química, adobe, saco, papel, gazela e girafa,
têm origens na língua egípcia. De igual forma, certas expressões, como
"anos de vacas magras", são também de origem egípcia. As crianças do
Antigo Egipto já brincavam a " macaca ", tal como o fazem as crianças de hoje em dia, e os adultos apreciavam um jogo de tabuleiro , conhecido como Senet .
A nível arquitectónico, estão presentes no mundo contemporâneo certos elementos da arquitectura do Antigo Egipto como o obelisco , que os Egípcios consideravam como um raio do sol petrificado. Ele está presente em várias cidades mundiais, como Buenos Aires ou no Monumento de Washington nos Estados Unidos da América . Outras cidades possuem mesmo obeliscos que foram trazidos do Antigo Egipto ( Place de la Concorde em Paris , Praça de São Pedro no Vaticano ...). A construção piramidal, associada ao Antigo Egipto, encontra-se também em edifícios como a Pirâmide do Louvre de Paris ou o Luxor Hotel de Las Vegas .
Alguns símbolos da alquimia são de origem egípcia, como a serpente ouroboros e a ave fénix . O papiro dos egípcios foi o antepassado do papel dos nossos dias.
Mas será porventura no domínio da religião e da espiritualidade que o legado do Antigo Egipto está mais presente. Embora já não se veja na experiência religiosa de Akhenaton um monoteísmo puro nascido antes do monoteísmo dos Hebreus , não deixa de ser curiosa a semelhança entre versos do Grande Hino a Aton escrito por Akhenaton com o salmo 104 da Bíblia .
Os Egípcios acreditavam na necessidade de levar uma vida pautada por
uma conduta ética de modo a assegurar uma vida no Além, um conceito
presente em várias religiões dos nossos dias. O relato da morte e
ressureição do deus Osíris , lembra a própria morte e ressureição de Jesus Cristo , no qual assenta o cristianismo . A Igreja Copta , que reúne a maioria dos cristãos do Egipto, usa como símbolo a cruz ansata ou ankh , símbolo da vida no Antigo Egipto. Segundo Heródoto, os sacerdotes egípcios praticavam a circuncisão e dedicavam alguns dias do ano ao jejum , dois elementos que estão presente em religiões como o judaísmo e o islão . Para além disso, os movimentos esotéricos e ocultistas tem também o Antigo Egipto como referência, apropriando-se de elementos e símbolos desta civilização.
