Akhenaton

Akhenaton , cujo nome inicial foi Amen-hotep IV (ou, na versão helenizada , Amenófis IV ), foi um grande faraó da XVIII Dinastia egípcia . A historiografia
credita esta personalidade com a instituição de uma religião monoteísta
entre os egípcios, numa tentativa de retirar o poder político das mãos
dos sacerdotes , principalmente aqueles do deus Amon da cidade de Tebas .

Para concentrar o poder na figura do faraó, ou para apenas retirar o poderio dos sacerdotes, Akhenaton instituiu o deus Aton como a única divindade que deveria ser cultuada, sendo o próprio faraó
o único representante e mediador dessa divindade. Outras fontes
acreditam que Akhenaton apenas queria retirar o poder dos sacerdotes,
que em muito influenciavam a vida política dos egípcios, de forma
muitas vezes nocivas.





Origens familiares

Amen-hotep era filho de Amen-hotep III , o nono rei da XVIII Dinastia e da rainha Tié . Cresceu no palácio de Malkata , localizado a sul da cidade de Tebas .
Durante o reinado do seu pai o Egito viveu uma era de paz, prosperidade
e esplendor artístico. Não se sabe muito sobre a sua infância, dado que
não era hábito entre os antigos Egípcios documentar a vida das crianças
da família real. Teve provavelmente como preceptor Amen-hotep Filho de Hapu e ao que parece enquanto jovem era fisicamente débil , não lhe agradando as actividades relacionadas com a caça e o manejo de armas.


Amen-hotep não estava destinado a ser rei do Antigo Egito. Este
lugar iria ser ocupado pelo seu irmão mais velho, o príncipe Tutmés,
que era filho de Amen-hotep III com Gilukhipa ,
uma esposa secundária filha do rei de Mitanni. Porém, Tutmés morreu
antes do ano 30 do reinado do pai (possivelmente no ano 26) e
Amen-hotep acedeu à categoria de "Filho Maior do Rei", ou seja,
herdeiro do trono.


Amen-hotep tinha sido criado para ser sacerdote do templo de Heliópolis , cidade do Baixo Egipto que era o centro do culto do deus solar . Quando o seu irmão faleceu é possível que também tenha herdado o cargo de sumo-sacerdote de Ptah , deus associado aos artistas.



O reinado em Tebas




Akhenaton e Nefertiti


Akhenaton tornou-se rei aos quinze anos por volta de 1364 a.C. Os
investigadores dividem-se em torno de uma possível co-regência de
Amen-hotep III e do seu filho, não existindo certeza a este respeito.
Associar um filho ao trono ainda em vida de faraó foi um recurso
utilizado por vários reis egípcios de modo a garantir uma sucessão sem
problemas.


Quando os reis egípcios subiam ao trono adoptavam cinco nomes, que
de certa forma indicavam o programa simbólico do novo monarca. Estes
cinco nomes são conhecidos como a titulatura e no caso de Amen-hotep IV foram os seguintes:


  • Nome de Hórus: Touro poderoso com as duas altas plumas
  • Nome das Duas Damas: Grande é a sua realeza em Karnak
  • Nome do Hórus de Ouro: O que leva as coroas de Hermontis
  • Rei do Alto e Baixo Egipto: Maravilhosas são as manifestações de Rá
  • Filho de Rá: Amen-hotep, divino regente de Tebas

Pensa-se que nesta altura já estaria casado com Nefertiti ,
a sua famosa esposa. Durante muito tempo defendeu-se que Nefertiti
teria uma origem estrangeira, devido ao fato do seu nome significar "a
bela chegou", mas actualmente a maioria dos investigadores considera
que ela seria egípcia, talvez natural da cidade de Akhmim .
A união entre ambos parece ter sido imposta pela mãe, que seria tia de
Nefertiti; no entanto, entre os dois desenvolveu-se um grande afecto e
Nefertiti alcançou um protagonismo político sem antecedentes entre as
esposas reais.


Em Tebas, bem como em Mênfis e em Hermopólis, Amen-hotep iniciou um
programa de obras públicas. Em volta do templo de Amon em Karnak
(Tebas) mandou construir quatro templos dedicados a Aton, o que para
alguns autores seria uma tentativa de realizar uma fusão entre os dois
deuses.


Um dos mais interessantes destes templo é o conhecido como o
"Hutbenben", o que significa casa de Benben. Benben era o monte inicial
a partir do qual surgiu o deus Aton (uma manifestação do deus solar),
que iniciou a criação do mundo. Neste templo vê-se como oficiante a
rainha Nefertiti, acompanhada de uma filha, Meketaton, o que mostra o
papel central desempenhado pela rainha nas concepções religiosas de
Akhenaton.


Para se conseguir criar estes templos em pouco espaço de tempo os
engenheiros de Amen-hotep recorreram a uma nova técnica. Dado que estes
templos foram concebidos sem a necessidade de telhado, as paredes não
tinham que ser tão robustas. Os construtores cortaram blocos de pedra
com cerca de 50 cm de comprimento e 25 cm de largura e altura, que são
conhecidos hoje como "talatat" ("árvore" em árabe ). Recorrendo a estes blocos os pedreiros construíram os templos.


No ano 3 do seu reinado Amen-hotep celebrou o festival "sed". Estes
festivais eram celebrados quando o faraó fazia trinta anos de reinado.
Não se sabe a razão que levaria Amen-hotep a celebrar este festival tão
cedo. O que sabe é que no festival apenas mencionou o nome do deus
Aton. As cerimónias do "sed" tiveram lugar numas das estruturas
referidas anteriormente, conhecida como o Guemetpaaton.



De Amen-hotep a Akhenaton

No ano 5 do seu reinado o jovem rei decide mudar de nome. De Amen-hotep, nome que significa " Amon está satisfeito" muda para Akhenaton o que significa "o espírito actuante de Aton ",
o que representou o seu repúdio ao deus Amon. O rei declarou-se também
filho e profeta de Aton, uma divindade representada como um disco
solar. Akhenaton instituiu o deus Aton como a única divindade que
deveria ser cultuada, sendo o próprio faraó o único representante dessa
divindade.


No entanto, o deus Aton não era um deus novo no panteão egípcio.
Aton era considerado pelos egípcios como uma manifestação visível do
deus Rá-Horakhti e já era mencionado nos Textos das Pirâmides ,
que são os textos de carácter religioso mais antigos encontrados no
Egito. O que há de novo na religião introduzida por Akhenaton é o lugar
central de Aton, remetendo outros deuses ao desaparecimento ou a uma
posição secundária. Dessa forma, Akhenaton pode ser considerado o
criador da idéia do Monoteísmo .


Não se sabe ao certo qual teriam sido as motivações de Akhenaton
para tomar esta atitude. Aponta-se o poderio do clero de Amon, que
possuía terras na Ásia e na Núbia ,
assim como pedreiras, minas e rebanhos. Todos estes bens seriam
transferidos por Akhenaton para o templo de Aton que mandou construir
numa nova cidade, Akhetaton.




Akhetaton, a nova capital do Egipto

No ano 6, Akhenaton decide abandonar Tebas para fundar uma nova
cidade dedicada a Aton. Ao contrário de outros deuses, Aton não tinha
ainda um local de culto próprio e Akhenaton decide-se por criar um. O
local escolhido situa-se entre Mênfis e Tebas, na margem direita do
Nilo e recebeu o nome de Akhetaton ("o horizonte de Aton"); actualmente as ruínas deste local são conhecidas como Amarna , o nome da aldeia egípcia próxima.


Os terrenos em redor da cidade eram favoráveis à prática agrícola e
a criação, assegurando o abastecimento dos seus futuros habitantes. A
cidade foi construída em quatro anos. Parte da população que se fixou
na nova capital seria oriunda de Tebas, sendo composta pelos
agricultores, militares, escribas e artífices que acompanharam o rei no
seu projecto. Julga-se que Akhetaton teve uma população de cerca de
vinte mil habitantes. O urbanismo da cidade caracterizava-se pela
simplicidade, com grandes avenidas.


No centro da cidade encontrava-se o grande templo de Aton, que tinha
cerca de oitocentos metros de comprimento e trezentos metros de
largura. A sua arquitectura era completamente diferente de outros
templos da XVIII Dinastia: não tinham salas escuras, onde se realizava
o culto, mas vários pátios ao ar livre que levavam ao altar do deus.
Sendo dedicado a uma divindade solar, não fazia sentido a escuridão das
salas; uma estrutura ao ar livre permitia a presença dos raios de Aton.


O palácio real tinha cerca de oitocentos metros, erguendo-se ao
longo do eixo principal da cidade,e anexo a ele o faraó possuía um
templo particular para suas meditações e orações,que era chamado `o
castelo de Aton`. Ali eram realizados os rituais privados do rei para
fazer levantar o Sol da justiça de todas as manhãs. Era uma cerimônia
em que o faraó procurava manter a mente limpa e em paz no novo dia que
nascia. Só através da influência benéfica dos planos superiores ele
poderia julgar e decidir o rumo do Egito com sabedoria e justiça. À
norte deste palácio encontrou-se aquilo que seria uma espécie de jardim
zoológico. Os altos funcionários possuíam grandes quintas, com os seus
jardins.


Uma avenida cortava a cidade de norte a sul. Essa grande avenida
tinha mais de trinta e oito metros de largura; talvez tenha sido a
maior rua do mundo antigo. O objetivo daquela extensa largura era
promover desfiles de carruagens da família real e ser um grande largo
para as festividades populares ao deus Aton. A cidade completa,
incluindo suas demais ruas internas, dispersava-se para todos os lados
em vinte e sete quilômetros, abrangendo os subúrbios de ambas as
extremidades. Ali foram construídos templos e moradias para a classe
média, composta de arquitetos artesãos e escribas. Al´m do bairro
norte, construiu-se uma aldeia para obrigar os trabalhadores mais
modestos, que trabalhavam as pedras e fabricavam os tijolos de barro
para as construções.


Akhenaton teve seis filhas com Nefertiti. Com uma rainha secundária, chamada Kia, Akhenaton teve um menino chamado Tutankhaton (a imagem viva de Aton) que se tornou príncipe herdeiro do trono do Egito.



Governo de Akhenaton

Akhenaton deixou-se absorver pelo sua devoção a Aton, ou talvez pela
sua personalidade artista e pacifista, descuidando os aspectos práticos
da administração do Egipto. Perante este desinteresse, Aye e o general Horemheb , duas personalidades que mais tarde se tornariam faraós, desempenharam um importante papel no governo.


Entre o ano 8 e o ano 12 sabe-se que Akhenaton desencadeou uma
perseguição aos antigos deuses, e em particular, aos deuses que estavam
associados à cidade de Tebas, Amon , Mut e Khonsu .
O faraó ordenou que os nomes destes deuses fossem retirados de todas as
inscrições em que se encontravam em todo o Egipto. Esta situação
atingiu directamente não só os sacerdotes, mas a própria população. As
descobertas da arqueologia mostram que os donos de pequenos objectos retiraram os hieróglifos do deus Amon deles, numa atitude de autocensura, temendo represálias.


No ano 12 ocorreu um grande festival em Akhetaton, cujo motivo
exacto não se conhece. Seria talvez uma espécie de refundação da cidade
de Aton. No palácio real foram recebidas delegações da Ásia, Líbia , Núbia e das ilhas do Egeu .


O império que o Egipto tinha construído ao longo das últimas décadas
desintegrava-se aos poucos, possivelmente porque Akhenaton seria um
pacifista, não desejando, portanto, manter reinos vassalos nem uma
política militar imperialista. No Médio Oriente o Egipto tinha os seus
aliados e parece que o faraó não atendeu aos seus pedidos de ajuda,
face à ameaça hitita . Este povo acabará por conquistar o Médio Oriente, tomando os portos da Fenícia ; os Mitânios, aliados do Egipto, são varridos do mapa. Povos beduínos invadem a Palestina e conquistam Jerusalém e Megido . Ao sul, o Egipto perde o controle sobre as minas de ouro da Núbia fundamentais para o comércio egípcio.



A arte de Armana




Busto de Akhenaton. Museu de Alexandria, Egipto.


O reinado de Akhenaton assistiu à emergência da chamada "arte
armaniana", que se caracteriza por um lado pelo naturalismo (abundância
de plantas, flores
e passáros) e por outro lado, por uma representação mais realista das
personagens que por vezes atinge o ponto da caricatura. A arte oficial
apresenta o rei com uma fisionomia andrógina, com um crânio alongado, lábios grossos, ancas largas e ventre proeminente.


Possivelmente Akhenaton era portador de algum tipo de deficiência.
Tem sido também sugerido que teria uma doença genética rara que
transmitiu aos seus descendentes, como a Síndrome de Marfan ou a síndrome de Fröhlich .
Se este fosse o caso, Nefertiti e os altos dignitários também sofreriam
de alguma destas doenças visto que surgem representados da mesma forma,
o que em parte parece descartar esta hipótese.


Para alguns autores, esta iconografia seria uma manifestação
artística que visava romper com os canônes do passado (tal como
Akhenaton fizera no domínio religioso) e afirmar a singularidade da
família real.


Atribui-se a Akhenaton igualmente talentos na poesia. O faraó teria
sido autor do famoso "Hino a Aton" que apresenta semelhanças com o
Salmo 104 da Bíblia .



Últimos anos

Akhenaton reinou por cerca de 17 anos. Aproximadamente no ano 15 do seu reinado surge um misterioso co-regente chamado Smenkhkare . Alguns egiptólogos acreditam que Smenkhkare era a rainha Nefertiti
que assumiu atributos de faraó para tornar suave a transição de governo
para o herdeiro do trono que, nessa época, deveria ter por volta de
quatro anos de idade. Outros acreditam que ele era, na verdade, o filho
mais velho de Akhenaton e irmão de Tutankhamon , que lhe sucedeu.


Seja como for, nada se sabe sobre Nefertiti após o ano 15. Na opinião de Cyril Aldred , Nefertiti morreu no ano 13 ou 14 do reinado de Akhenaton. Kia também teria desaparecido mais ou menos na mesma altura que Nefertiti e Meritaton , filha de Akhenaton e Nefertiti , tornou-se a primeira dama do reino.


Nada se sabe sobre a morte de Akhenaton a não ser que faleceu no ano 17 . A sua múmia foi talvez queimada ou colocada no Vale dos Reis . Suspeita-se que tenha sido assassinado a mando dos sacerdotes, prejudicados por sua administração austera.


Smenkhkare reinou por cerca de dois anos até que, aos oito anos de idade, o jovem Tutankhaton
foi elevado ao trono do Egito. Seu breve reinado (ele morreu quando
tinha aproximadamente 18 anos de idade) foi marcado pela reaproximação
da família real com o clero tebano do deus Amon . Tanto que o faraó recém entronizado trocou o seu nome para Tutankhamon (a imagem viva de Amon ), selando uma certa paz com os sacerdotes de Tebas e com as antigas tradições egípcias. As radiografias feitas na múmia de Tutankhamon mostram um golpe no crânio, o que levanta a hipótese de ter sido assassinado . Tutankhamon foi sucedido por Aye , que reinou três anos, e este por sua vez foi sucedido por Horemheb .